Empreendimento liderado por mulheres usa látex para criar joias sustentáveis e gerar renda na Amazônia
Látex: O Ouro Branco da Amazônia Um empreendimento liderado por mulheres tem ressignificado a moda e promovido a preservação da natureza por meio do látex....
Látex: O Ouro Branco da Amazônia Um empreendimento liderado por mulheres tem ressignificado a moda e promovido a preservação da natureza por meio do látex. Artesãs da Amazônia estão transformando a seiva que dá origem à borracha em joias orgânicas e biomateriais. Fundada pela artesã Kátia Fagundes, a empresa Da Tribu utiliza o látex extraído da seringueira para moldar peças e acessórios que unem beleza e sustentabilidade. A matéria-prima é comprada de famílias de seringueiros que vivem nas ilhas de Cotijuba, Paquetá e Mosqueiro, em Belém, e em Ponta de Pedras, no Marajó. ✅ Clique e siga o canal do g1 PA no WhatsApp O grupo de dez mulheres banha fios de algodão no látex, transformando-os em fios emborrachados: uma atividade que gera renda e promove o empoderamento feminino. Esses fios ganham cores vibrantes e dão vida a joias orgânicas variadas: colares, pulseiras, anéis e brincos. Segundo Kátia Fagundes, desde a fundação, em 2009, a empresa aposta em insumos orgânicos para pensar a moda de forma sustentável. Tenho total compreensão de que o propósito do nosso negócio é preservar a floresta em pé e fortalecer os recursos que chegam às comunidades, porque a floresta só permanece em pé se houver pessoas que vivam e consigam se sustentar dela Esta é a segunda reportagem da série especial “Látex: O Ouro Branco da Amazônia”. Dividida em três partes, as matérias abordam o aprendizado deixado pela exploração do látex em Belém; como mulheres transformam a seiva da borracha em joias orgânicas; e a empresa que produz calçados ecológicos usando látex e açaí. Nesta reportagem você vai ler: Processo de extração Joias orgânicas e biomateriais Respeito aos saberes tradicionais da floresta Processo de extração 🌳 As joias orgânicas têm origem no trabalho de famílias como a de Manoel Barros, 66 anos, na Ilha de Cotijuba. Conhecido como “Seu Bacu”, ele é dono de um terreno com quase 200 seringueiras e extrai o látex em conjunto com familiares. A coleta de látex na floresta amazônica é uma técnica tradicional de extração. Marcus Passos/g1 Pará Seu Bacu explica que o grupo percorre o terreno fazendo cortes nas seringueiras: processo chamado de “riscar”. A saída para o campo varia com a luminosidade: no inverno, por volta das 5h15; no verão, às 6h30. “Fazemos os riscos nas 200 árvores toda manhã e paramos às 9h. Após um intervalo para o látex escorrer, voltamos por volta das 11h para colher o líquido”, conta. O grupo extrai de 25 a 29 litros de látex por dia. Após a coleta, há um processo de crivagem (filtragem) para remover impurezas. Depois, o látex limpo é transportado em tonéis de 5 litros para o ateliê de Kátia. “Acho interessante e bom para a gente, porque essa atividade representa uma renda a mais para o orçamento da minha família”, diz Seu Bacu. [Voltar ao topo] Joias orgânicas e biomateriais No ateliê de Kátia Fagundes, as artesãs filtram o látex com um pano fino para retirar impurezas e adicionam antifúngicos e bactericidas para conservação. Depois, a seiva precisa ser cozida a 65°C por cerca de seis horas, em um processo que estabiliza o látex e evita que o produto vire borracha sólida espontaneamente. Depois, as artesãs fazem a pigmentação com tintas de tecido, criando diferentes tonalidades. O látex colorido é aplicado manualmente sobre fios de algodão, esticados em varais, em várias camadas até formar os fios emborrachados usados nas peças. “Você derrama e passa várias vezes o látex sobre o fio de algodão, como se estivesse encerando uma linha de pipa. Espera secar e só depois passa outra camada”, explica Suelen Belém, uma das artesãs. Processo de produção dos fios emborrachados pela Da Tribu O resultado são novelos de fios emborrachados usados em colares, pulseiras, anéis e brincos. Além das joias, as mulheres produzem biomateriais como tecidos para mochilas e bancos. Os fios e os tecidos produzidos pela empresa são vendidos para marcas nacionais e internacionais voltadas à moda sustentável. [Voltar ao topo] Respeito aos saberes tradicionais da floresta Kátia Fagundes diz que a Da Tribu nasceu da necessidade de empreender. O nome homenageia sua família, já que seus filhos têm nomes indígenas: Moahra, Kauê e a filha Tainah, que cuida da comunicação da empresa. “Os meus filhos foram, junto comigo, jardineiros fiéis desse sonho”, afirma Kátia. O trabalho com fios emborrachados começou em 2013 na comunidade Paulo Fontelles, na Ilha de Mosqueiro, e depois migrou para a comunidade Pedra Branca, na Ilha de Cotijuba. Fios emborrachados produzidos pelo projeto. Divulgação “Hoje trabalhamos com saberes ancestrais e seringueiros, formando uma cadeia produtiva”, diz. A empresa participa de programas como Jornada Amazônia, Plataforma Parceiros pela Amazônia e ASSOBIO, com apoio do Fundo Vale, que ajudam a fortalecer negócios de base florestal. O projeto também promove impacto social direto entre as mulheres da comunidade. Segundo Kátia, muitas delas são a principal fonte de renda da família. “Elas levam recursos para ajudar na renda familiar e, às vezes, ganham mais que os maridos”, revela. Algumas das artesãs que integram a Da Tribu. Marcus Passos/g1 Pará Suelen Belém, de 34 anos, faz parte da equipe há dois anos e diz que atuar como artesã ajuda bastante na renda, especialmente porque o trabalho é escasso na ilha. “A gente se sente reconhecida e orgulhosa de mostrar nossa ilha pelo trabalho”, conta. Ela afirma que vê no trabalho uma forma de resgatar a história familiar: seu avô e seu pai foram seringueiros em Cotijuba. A empresa ajuda a nossa ilha a manter a floresta em pé, que é o principal de tudo LEIA MAIS: História da borracha envolve Brasil vítima de pirataria e criação de cidade na Amazônia Borracha tem origem em árvore nativa da Amazônia Museu do Seringal reúne relíquias do período da borracha em Manaus Relatos dos Soldados da Borracha de Rondônia [Voltar ao topo] VÍDEOS: veja todas as notícias do Pará Confira outras notícias do estado no g1 PA