Francisco Coimbra, o empresário que transformou desenvolvimento em ‘lucro social’ em Santarém
Francisco Raimundo Coimbra Lobato, o “Chico Coimbra” Arquivo Pessoal Na editoria Por dentro da história, o g1 Santarém e Região resgata a trajetória de ...
Francisco Raimundo Coimbra Lobato, o “Chico Coimbra” Arquivo Pessoal Na editoria Por dentro da história, o g1 Santarém e Região resgata a trajetória de personagens que ajudaram a construir a identidade e o desenvolvimento do oeste do Pará. Nesta reportagem, a vida de Francisco Raimundo Coimbra Lobato, o “Chico Coimbra”, destaca como empreendedorismo, filantropia e compromisso social podem caminhar juntos e deixar marcas duradouras. As informações contidas na reportagem são baseadas nos registros do filho dele, João Francisco Lobato, que escreveu e catalogou ao longo dos anos sobre o pai. Nascido em Porto de Moz, norte do Pará, em 17 de junho de 1936, Chico Coimbra construiu a história dele em Santarém, no oeste do Pará, onde viveu grande parte da vida e faleceu em 2016. Foi na cidade que ele consolidou na atuação como empresário e líder comunitário, se tornando uma das figuras mais respeitadas da região. Infância difícil e construção pelo trabalho Ele nasceu em Porto de Moz, mas escolheu Santarém para viver e construir família e todo o legado dele Arquivo Pessoal Órfão ainda jovem, Chico Coimbra foi assistido pelos tios e avô com a responsabilidade de ajudar a mãe e aos irmãos. A necessidade de trabalhar cedo moldou o perfil disciplinado e resiliente que o acompanharia ao longo da vida. Após concluir os estudos no Colégio Dom Amando, em Santarém, seguiu para Belém, onde se formou técnico em contabilidade na Escola Fênix Caixeral Paraense, na década de 1950. O conhecimento adquirido foi fundamental para o início da carreira nos negócios da família. Empreendedorismo e pioneirismo industrial Chico começou atuando nas empresas Coimbra e Filhos e, posteriormente, Coimbra e Irmãos. No fim dos anos 1960, se tornou sócio e passou a liderar a expansão dos negócios, dando origem ao Grupo Coimbra Lobato. Com visão estratégica, investiu na industrialização da borracha em Santarém, um movimento pioneiro para a época. Implantou beneficiadoras de látex e fábricas de artefatos, contribuindo diretamente para a geração de emprego e renda na região. O grupo chegou a reunir mais de 800 colaboradores, com atuação que ultrapassava o Pará, alcançando estados como Acre, Rondônia e São Paulo. Educação como legado transformador Um dos maiores legados de Chico Coimbra foi o investimento na educação. Preocupado com a falta de oportunidades para jovens da região, criou a Associação Assistencial ao Estudante Universitário do Médio Amazonas (Asseuma). Criada em um período em que Santarém ainda não contava com instituições de ensino superior, a Associação se tornou uma ponte para jovens que sonhavam com a graduação, mas não tinham condições de deixar o interior. Fundada e mantida com recursos próprios por Francisco, a iniciativa garantiu moradia e apoio a estudantes em Belém, contribuindo diretamente para a formação de mais de 700 profissionais. “Ele foi o entusiasta da questão educacional naquela época que Santarém não dispunha de nenhum tipo de acesso ao ensino superior. Então, foi ideia dele a criação de uma entidade que desse oportunidade para os estudantes santarenos sem grandes condições de cursar na faculdade em Belém”, destacou o médico e amigo de Francisco, João Otaviano. Entre os beneficiados está o hoje empresário Roberto Branco, que relembra as dificuldades enfrentadas antes do apoio da associação. “Quando jovem, fui cursar Engenharia Civil na capital do Estado. Eu era um estudante pobre aqui de Santarém, do Colégio Estadual Álvaro Adolfo, e não tinha condições de ir para Belém fazer faculdade, porque aqui não existia. Então, a associação que ele fundou apoiava e bancava esses jovens que tinham vontade de fazer um curso superior e não tinham condições”, afirmou. Os reflexos desse investimento ainda são percebidos, atualmente, com os vários profissionais formados que atuam em diversas áreas no oeste do Pará. O conceito de “lucro social” Mais do que resultados financeiros, Chico Coimbra defendia que empresas deveriam gerar impacto positivo na vida das pessoas. Ele chamava esse compromisso de “lucro social”. Nas empresas, implantou benefícios que iam além das obrigações legais, como apoio à moradia, transporte, cooperativas de abastecimento, creches e espaços de lazer para funcionários. Ao lado da esposa, Elinôr Carmen de Oliveira Lobato Arquivo Pessoal Ao lado da esposa, Elinôr Carmen de Oliveira Lobato, com quem foi casado por mais de 60 anos, também liderou projetos sociais no município, incluindo a criação de mais de 20 creches em áreas vulneráveis. Reconhecimento e homenagem em Santarém Fachada da EETEPA Francisco Coimbra Lobato, em Santarém-PA g1/Arquivo O legado de Chico Coimbra também foi reconhecido oficialmente. A Escola Tecnológica de Santarém recebeu o nome de Francisco Coimbra Lobato, em homenagem à sua contribuição para a educação e o desenvolvimento regional. A homenagem destaca especialmente o papel da Asseuma no apoio a estudantes universitários do Médio Amazonas, reforçando a importância da iniciativa idealizada por ele. A denominação foi instituída por meio de lei estadual. Um líder conciliador Apesar da forte presença na vida pública, Chico Coimbra nunca ocupou cargos políticos. Ainda assim, era frequentemente consultado e respeitado por lideranças da região. Reconhecido como conciliador, defendia o diálogo e a união, sendo descrito como alguém capaz de transitar entre diferentes grupos com equilíbrio e respeito. Também teve papel ativo na cultura santarena, incentivando a música e promovendo encontros que ficaram marcados na memória da cidade. Atuante na área esportiva, presidiu na década de 70 o São Francisco Futebol Clube, um dos maiores times do oeste do Pará. Família, memória e homenagens Família Coimbra Arquivo Pessoal Chico Coimbra deixou seis filhos: Franceli Maria, Zuila Nazaré, Carmen Elinôr, João Francisco Lobato, Rosana Cristina e Antônio Anselmo, além de netos e uma extensa rede de amigos. Em meio às homenagens e ao reconhecimento pela trajetória construída ao longo da vida, familiares também ressaltam o lado humano e afetivo de Francisco Coimbra. Para a filha Zuila Lobato Wanghon, a lembrança que fica é de um homem marcado pela fé, simplicidade e dedicação ao próximo, características que, segundo ela, estiveram presentes tanto na vida pessoal quanto nas ações voltadas à comunidade. Ela destaca que o pai mantinha uma rotina religiosa ativa e era conhecido por incentivar projetos sociais sem buscar visibilidade, além de cultivar relações de amizade duradouras e sinceras. “Meu pai foi o homem mais extraordinário que conheci em minha vida. Era um homem com uma alma humana diferenciada, de uma humildade, generosidade e companheirismo sem igual. Papai foi um homem bom, amigo dos seus amigos. Frequentava quase que diariamente missas, um cristão verdadeiro, como bem poucos que conheci. Fazia o bem sem olhar a quem". De com acordo com a Zuila, o pai sempre incentivava e apoiava projetos sociais, sem buscar promoção social. Ela também enfatiza o papel do pai dentro da família, descrevendo ele como presente, carinhoso e atento, cuja ausência ainda é sentida no cotidiano. Para ela, o legado deixado não é apenas de realizações, mas de valores que continuam sendo referência para todos que conviveram com ele. "Apesar de não estar mais ao meu lado, sua memória está eternizada com lembranças de uma categoria rara de homem de fé, líder respeitado e trabalhador, seresteiro apaixonado, empreendedor à frente do seu tempo e, acima de tudo, um amigo solidário e leal ao que acreditava, um cidadão digno e humano. Gratidão por ter convivido com ele. Privilégio de ter sido sua filha e ter sido amada por ele.” Zuila com o pai e a mãe Arquivo Pessoal Em homenagem publicada em março de 2026, o filho João Francisco Lobato destacou o legado humano do pai ao escrever: “Empreendedor visionário, seresteiro apaixonado, filantropo dedicado, católico devoto e torcedor fervoroso do São Francisco, ele foi acima de tudo um colecionador de amigos e um humanista convicto”, destacou João. Elinôr Carmen de Oliveira Lobato e Francisco Coimbra Arquivo Pessoal Em outro trecho, ele resume a essência da atuação de Chico Coimbra. “Sua visão de negócios nunca se desvinculou do cuidado genuíno com seus mais de 800 colaboradores e suas famílias, não como números, mas como gente”, disse. O texto também ressalta a filosofia que guiava suas ações. “Ele chamava esse compromisso de ‘lucro social’, pois é uma síntese sensível de sua convicção de que a prosperidade material só encontra seu verdadeiro propósito quando serve à dignidade e ao bem-estar das pessoas.” *Com informações da homenagem escrita por João Francisco Lobato Veja os vídeos que estão em alta no g1